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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Respostas Individuais ao Estresse

Em qualquer mecanismo para lidar com e responder ao estresse há, pelo menos, dois elementos básicos envolvidos: a pessoa e a fonte de estresse e sua intensidade. A atitude de uma pessoa para com o estresse e o sofrimento irá decidir em muito o êxito que terá no futuro ao lidar com ele. Se a pessoa recebe bem sua presença como “tempero da vida” e crê que sem estresse a vida é monótona, este “tempero” pode ser necessário! Mas se vê o estresse como um vírus malígno que está pronto para atacar, a pessoa pode ter muita dificuldade em lidar com ele.

O estresse psicológico pode ter origem dentro do indivíduo, como acontece quando há conflito interno e preconceito. Pode ser causado por eventos externos tais como injustiça, inflação, desemprego, privação social, poluição atmosférica e ameaça de guerra nuclear. Além disso, cada pessoa possui determinadas necessidades que podem ser física, emocional, social ou espiritual. Quando qualquer uma dessas necessidades é inibida ou frustrada, seja justificadamente ou com muita frequência, os sintomas de estresse ocorrerão.

Há muitos fatores que influenciam a percepção da pessoa de uma resposta ao estresse. E ainda, as pessoas diferem em sua habilidade de responder e se adaptar ao estresse. O que é estresse para um indivíduo pode não ser para outro – pode até mesmo ser percebido como um desafio.

A percepção de uma pessoa de seu meio ambiente como sendo estressante ou ameaçador pode ser tão importante quanto a verdadeira intensidade e caráter da ameaça em si mesma. Linford Rees descreveu um paciente cuja principal queixa era um intenso sentimento de ansiedade. À medida que o psiquiatra começou a contar uma história muito longa, o paciente comentou: “ Posso lhe dizer exatamente qual é o problema. É meu trabalho!”.

O terapeuta respondeu: “Sim, então, fale sobre seu trabalho”. O paciente continuou: “Trabalho em uma loja de frutas”. “O que você faz exatamente?” “Meu trabalho é separar as laranjas grandes das laranjas pequenas.” “Sim”, disse o terapeuta.” “Então, é  isso”, replicou o paciente. “Decidir, decidir, decidir.”

Enquanto a forma e a intensidade de qualquer resposta comportamental ao estresse dependerá em muito da natureza do estresse e das respostas do indivíduo e atitudes culturais, diversos fatores vão influenciar a resposta de uma pessoa ao estresse.

A percepção e interpretação de uma crise ou ameaça pelo indivíduo terá  importante influência na qualidade e extensão da reação para com essa ameaça. Se a pessoa pode dar sentido a um evento ou à uma crise e tirar uma conclusão objetiva que dará novo significado à sua vida, esse evento estressante pode muito bem ser percebido como menos ameaçador. Por exemplo, a religião tem dado certas explicações à humanidade de eventos na vida e história, os quais, de outra forma, poderiam não ser bem entendidos. Essas explicações nos permite dar sentido e obter conforto dos eventos, os quais, de outra maneira, causariam grande tristeza.

A história a seguir ilustra como a dor com relação à morte de uma pessoa amada foi transformada em conforto por ‘Abdu’l-Bahá.

Um dia, uma mulher perguntou a ‘Abdu’l-Bahá se Ele visitaria sua filha doente em ‘Akká, na Terra Santa. Ele foi e levou duas rosas cor-de-rosa que deu à pequena. Então, voltando-Se para a mulher, disse com voz repleta de amor: “Deves ter paciência!” Naquela noite, a criança morreu. Quando a mãe perguntou a ‘Abdu’l-Bahá porquê, Ele disse:

“Existe um jardim que é de Deus. Os seres humanos são árvores que crescem nesse jardim; nosso Pai Celestial é o Jardineiro. Quando o Jardineiro vê uma pequena árvore em um lugar que é muito pequeno para seu desenvolvimento, Ele prepara outro lugar mais apropriado e bonito onde ela possa crescer e dar frutos. Então, Ele transplanta aquela pequena árvore. As outras árvores ficam surpresas e dizem: “Esta era uma árvore adorável. Por que o Jardineiro a extirpou?” Somente o Jardineiro Divino sabe a razão.

“Tu estais chorando, porém, se pudesses ver a beleza do lugar onde tua filha está, não ficarias mais triste. Ela está livre agora, como um pássaro, e cantando melodias divinas e de felicidade. “Se pudesses ver por ti mesma esse Jardim sagrado, não te contentarias mais em permanecer na terra. Entretanto, aqui é onde tuas obrigações estão agora.”

Esta explicação do significado da morte e da vida além dela deu uma nova visão àquela mãe e abrandou sua tristeza. A morte de sua filha se tornou fez mais sentido e, com isto, menos dolorosa.

Diferentes indivíduos responderão de diferentes maneiras aos mesmos fatores que causam estresse (estressores). As respostas serão qualitativa e quantitativamente diferentes dependendo da personalidade de cada indivíduo. Por exemplo, a perda de emprego é um fator estressante. Algumas pessoas ficarão deprimidas, enquanto outras podem ficar estimuladas a seguir uma nova carreira. Uma pessoa cuja vida tem sido caracterizada por passividade e resignação terá uma resposta diferente daquela que reage obsessivamente a cada detalhe dos eventos do dia a dia. Semelhantemente, aqueles que abrigam um sentimento de desconfiança ou mesmo paranóia reagirá de modo diferente às ameaças comparados àqueles que alcançaram relacionamentos baseados na confiança em suas vidas.

As pessoas vivenciam o estresse de maneiras diferentes. O estresse devido ao envelhecimento é algo a ser considerado. O aniversário de uma pessoa pode ser uma fonte de alegria ou agonia dependendo da expectativa do indivíduo e do que o aniversário representa. Uma mulher que acabara de fazer 37 anos, me procurou para fazer tratamento de depressão. Ela se sentia frustrada e com raiva de um mundo “injusto” e demonstrava raiva de homens “insensíveis”. Ela era uma advogada bem sucedida e respeitada socialmente. Porém, estava insatisfeita consigo mesma e com seu trabalho e sentia que o tempo estava passando para ela. No decorrer do tratamento, revelou diversas decepções que enfrentou em seus relacionamentos, os quais todos falharam em terminar em casamento. Ela estava perturbada com o fato de que estava fazendo 37 anos, ainda não havia se casado e logo chegaria ao final da idade de ter filhos. Cada aniversário representava, a seus olhos, sua incapacidade de realizar seu sonho de se tornar esposa e mãe. Para ela, envelhecer era percebido como uma estrada para um destino velado sem esperança de ser cumprido. Em contraste a esta, está uma mulher de 45 anos, casada, mãe de três crianças em idade escolar e mantenedora da família porque seu marido estava desempregado. Ela não tem tempo para se preocupar com o envelhecimento! A ansiedade dela se originava de seu medo de perder o emprego. Os aniversários, seu e de outros membros da família, eram uma fonte de alegria e um motivo para comemorar. Envelhecer para ela era uma série de marcos ao longo de uma estrada repleta de eventos, cada dia trazendo seus próprios desafios e triunfos. Estes dois exemplos de reações ao estresse do envelhecimento salientam o fato de que não é somente as circunstâncias da vida de uma pessoa, mas também sua atitude que determinam como o envelhecimento é percebido. No primeiro exemplo, se aquela mulher tivesse encontrado sentido e propósito em seu trabalho e aceitado seu destino espiritual, envelhecer, para ela, teria sido bem diferente.

(A. M. Ghadirian, “Envelhecer-Desafios e Oportunidades”; George Ronald, 1991; livre tradução.)

O Dr. Ghadirian, é professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina da McGill University e psiquiatra chefe no Royal Victoria Hospital e Douglas Hospital, Montreal/Canada.

Fonte:  http://daquiprafrente.com/2014/08/respostas-individuais-ao-estresse-a-m-ghadirian/

terça-feira, 16 de abril de 2013

Pobreza: problema do indivíduo ou da estrutura social?



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Por Ernaldina Sousa Silva Rodrigues

Sabe-se que a questão da pobreza e da exclusão social está relacionada ao surgimento do capitalismo e da sociedade de mercado. Essas questões surgiram na Europa Ocidental num período conhecido como Modernidade, que vai do século XVI ao XIX. (SANTOS, 2009).  

Naquele momento, começaram a aparecer os pobres. Na concepção de Santos (2009), os pobres eram indivíduos que vagavam nas cidades em busca de meios de sobrevivência.

Revisitando a história, percebe-se que a estrutura da sociedade medieval, caracterizada pela organização feudal, apoiava-se em três estratos: o Clero, os proprietários de terra (Senhores), e os trabalhadores destas terras (Servos da Gleba). Os Servos da Gleba eram subordinados aos Senhores e eram os pobres daquela época. Viviam nas terras dos Senhores e prestavam-lhes serviços. De qualquer forma, os Servos eram pobres “incluídos” no sistema feudal. (SANTOS, 2009).

Contudo, de acordo com Santos (2009), havia aqueles pobres, tidos como insubordinados e desobedientes, que não encontravam lugar nos feudos. Dessa forma, essas pessoas viviam às margens do sistema, em bosques e terras coletivas, ao longo das estradas, praticando assaltos ou pedindo esmolas, conforme representa a fábula de Robin Hood. Suas ações eram combatidas com violência, pelos cavaleiros do feudo. A autora  aponta que essas pessoas não eram objeto de qualquer preocupação por parte dos Senhores feudais constituídos como autoridade política da época.

Consequentemente, no momento em que a sociedade se ordenou e se realizou, os problemas sociais surgiram. Naquele momento, as pessoas começaram a sair do campo e foram para a cidade. As cidades, então, cresciam e se multiplicavam. Sendo assim, mudanças aconteciam nas formas e nas relações de trabalho. As pessoas saiam em busca de trabalho. Com o aumento da circulação de pessoas na Europa, entre os séculos XVI e XVII, em busca de trabalho, aprofundou-se a pauperização. (SANTOS, 2009).

Nessa breve análise histórica, percebe-se que o capitalismo já nasce com controvérsias, ou seja, capaz de gerar riqueza e pobreza. Com essa constatação, apreende-se que a sociedade está estruturada a partir da desigualdade. Esta, por sua vez, pode ser considerada um mecanismo de produção e reprodução da pobreza. A desigualdade é consequência das diferenças de renda e da falta de acesso de pessoas e de grupos aos bens de direito, de acesso a uma renda adequada e de um padrão de vida comum. Então, entende-se que a pobreza pode ser considerada um problema da estrutura social, que gera extremos de riqueza e de pobreza.

Se por um lado, presenciamos pessoas excessivamente ricas, de outro, vemos desafortunados entregues à própria sorte e à dureza da fome e da miséria. Enquanto uns possuem residências suntuosas, palácios pomposos e majestosos, outros, não têm onde encostar a cabeça. Portanto, a sociedade gera riqueza que é apropriada apenas por alguns segmentos sociais.

Sabe-se que a igualdade é uma ilusão e inteiramente impraticável. “Mesmo que a igualdade pudesse ser atingida, não poderia continuar; e, se sua existência fosse possível, a ordem total do mundo seria destruída. A lei da ordem deve sempre prevalecer no mundo da humanidade”. (‘ABDUL’L-BAHÁ, 2005, p.128-129).

Sobre a questão da igualdade, ‘Abdul’l-Bahá (2005) explica que no mundo algumas pessoas são cheias de inteligência, outras possuem inteligência vulgar e ainda outras são desprovidas de intelecto. Diz que nessas três classes de indivíduos há ordem, mas não igualdade. Nesse sentido, questiona: “como seria possível que a sabedoria e a estupidez fossem iguais?” O autor compara a humanidade a um grande exército. Para Ele, 
a humanidade, semelhante a  um grande exército, requer um general, capitães, suboficiais e soldados, cada um com seus deveres determinados. A hierarquia é absolutamente necessária para assegurar uma organização bem ordenada. Um exército não pode ser composto unicamente de generais ou de capitães apenas, nem somente de soldados, sem alguém de autoridade. O resultado inevitável nessa hipótese seria a desordem e a desmoralização para o exército inteiro. (‘ABDUL’L-BAHÁ, 2005, p.129).

‘Abdul’l-Bahá (2005)  argumenta também que é necessária uma organização para controlar e melhorar esse estado de coisas referentes aos extremos de riqueza e pobreza, ou seja, alguns excessivamente ricos e outros lamentavelmente pobres. Diz que é importante limitar a pobreza e a riqueza, porque nenhum extremo é bom; e que deve haver leis especiais para tratar desses extremos, sendo inadmissível protelar a alteração das condições que trazem a miséria da pobreza oprimente a inúmeras pessoas. Com suas sábias palavras, Ele alerta que deixar a pobreza chegar ao estado de inanição é sinal certo de que em algum lugar se encontra a tirania.

Essas considerações vêm de encontro à análise que Santos faz da pobreza, das desigualdades e da exclusão social. Segundo a autora, essas questões têm se constituído em objeto de preocupação explícita da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Banco Mundial, consideradas agências multilaterais de fomento ao desenvolvimento. Para lidar com a questão das desigualdades sociais, estima-se que a “implementação de políticas públicas de redistribuição de renda seria um meio mais efetivo de redução do número de pobres”. (SANTOS, 2009, p. 21-22).

Nessa direção, a primeira tentativa de lidar com a pobreza se dá quando surge a Lei dos Pobres, na Inglaterra, muito criticada pelos liberais. Essa Lei é considerada a primeira forma de intervenção do Estado para a proteção dos indivíduos que não conseguiam arcar com a satisfação de suas necessidades. Hoje, percebem-se formas variadas e ampliadas de proteção social.

Na visão de Santos (2009), a proteção social está fortemente ancorada no Estado de Bem-Estar-Social. O Estado passa a usar a força estatal por meio da implementação de políticas públicas, visando intervir nas leis de mercado e assegurar para os seus cidadãos um patamar mínimo de igualdade social.

As políticas de intervenção social no Brasil têm sido caracterizadas como programas sociais focalizados ou universais, segundo Santos (2009). As políticas  focalizadas são destinadas ao atendimento de segmentos específicos da população, como os mais pobres, os portadores de deficiência, os idosos ou outros grupos. Por sua vez, as políticas sociais universalistas se aplicam a toda população, sem restrição de qualquer natureza, como por exemplo, O Sistema Único de Saúde - SUS, O Sistema Único de Assistência Social – SUAS  e a Educação Fundamental.

Santos (2009) considera que a renda distribuída por meio da previdência e da assistência social tem sido fundamental para a redução das desigualdades e expansão do consumo no país, nos últimos anos.

Por fim, vale lembrar que o Estado enfrenta um conjunto de desafios contemporâneos que fazem parte do drama social brasileiro vivido por inúmeras pessoas. Esses desafios requerem ações eficazes e eficientes que dependem de articulações entre os diversos níveis de governo para erradicar a miséria e estabelecer o direito de todos ao pão de cada dia, essencial à vida e a igualdade dos meios de subsistência.

Referências:

‘ABDUL’L-BAHÁ. Palestras de ‘Abdul’l-Bahá, Paris – 1911. 4ª Ed. Mogi Mirim: Editora Bahá’í do Brasil, 2005.

SANTOS, Maria Paula Gomes dos. O Estado e os problemas contemporâneos. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração / UFSC; [Brasília] : CAPES: UAB, 2009.